Oct
20

Reinventando “espaços de moda”

By Nomina Design  //  colunas, World Fashion + Varejo  //  Comments Off on Reinventando “espaços de moda”

Diante das mesmices dos ambientes brancos e de superfícies polidas da maioria das lojas, os espaços para marcas, principalmente as de luxo, recorrem ao visual brutalista, inacabado, improvisado e artesanal. O objetivo é apresentar algo mais que seus indefectíveis produtos.

Analogia chic
Em plena era digital e de compras online, surge uma nova tendência da valorização do ambiente real e autêntico, que tem uma história a revelar, proporcionando uma experiência que se faz necessária. Assim é a La Tourette (abaixo), a mais recente loja de Paul Smith em Paris. O antigo bistrô dos anos 1930 foi mantido intacto com suas paredes descascadas, espelhos manchados pelo tempo e azulejos trincados. Somente novos provadores foram adaptados para a loja. Paul Smith esforçou-se para manter a história do local viva, passando a sensação da atmosfera para cada visitante.

Reciclada
Bem mais direcionado ao entretenimento está o ambiente da marca L’Eclaireur (abaixo), no distrito do Marais, em Paris. Logo na entrada, uma instalação orgânica e escultural, que percorre a área central da loja, revela o ambiente nada convencional criado pelo SAQ (Studio Arne Quinze).
Para exposição de produtos, as paredes foram revestidas por colagens de materiais reciclados como ripas de madeira e placas de papelão. As diversas camadas dispostas randomicamente receberam um acabamento laqueado, recoberto com pintura automotiva, o que aumenta a ideia de obra de arte para o conjunto. A composição reciclada abre em vãos iluminados para abrigar araras de roupas ou pequenos nichos para expor bolsas, calçados e objetos decorativos.
Os 450 m² da loja são um caos ordenado em constante alternância entre o rústico e a tecnologia de ponta. Incrustadas entre as ripas, estão dispostas 147 telas planas apresentando imagens surreais entre outras telas chamadas Electronic Shadow, com as quais o visitante pode interagir.

Brutalista
Localizado numa esquina de um bairro de arte de Rotterdam, na Holanda, a loja MGH2O (abaixo) possui um clima de reforma inacabada. E, ao contrário do que se pode esperar, a loja de 100 m² da estilista Margreeth Olsthoorn é um espaço para conceituadíssimas marcas masculinas, entre elas Martin Margiela, Bless, Mads Norgaard e Comme des Garçons. Richard Hutten, responsável pela repaginação do local, decidiu ampliar visualmente a loja abrindo lajes e paredes. As que restaram foram “descascadas”, deixando aparentes os encanamentos, os dutos, as estruturas de ferro e as bordas de lajes de concreto, que foram aproveitados para expor produtos.
As paredes foram revestidas por painéis de aglomerado e, assim como o teto, o piso e os mobiliários, receberam uma única cor: o nude. A exceção fica por conta do balcão caixa que foi pintado na cor azul bebê.
Todos os mobiliários, incluindo a escada que dá acesso ao mezzanino, foram construídos dentro da loja por carpinteiros sob o comando de Hutten. Madeiras foram serradas e pregadas displicentemente para servir como araras, displays e mesas expositoras. Caixas em diferentes tamanhos foram agrupadas para formar os degraus da escada. Nas suas aberturas laterais estão expostos livros e produtos pequenos, à venda na loja. O espaço é, assim, charmosamente aproveitado. Blocos de poliestireno (isopor) foram colados uns sobre os outros formando o balcão caixa e Hutten não temeu deixar a cola escorrida à mostra.
O bruto versus a pureza do nude usados neste contexto surpreendem e chamam a atenção para uma nova forma de varejo onde a experiência é mais importante do que o produto consagrado. O tátil, o autêntico e o verdadeiro são fortes características que estão sendo levadas aos novos espaços de moda.

Por Noemi Saga, diretora de criação da Nomina Design.
Esse texto foi publicado na edição 32 da revista World Fashion + Varejo, na coluna + Sua loja.

Fotos Divulgação: La Tourette, L’Eclaireur  e MGH2O

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